Fiocruz publica artigo sobre método inovador de combate à arboviroses em revista do grupo Nature

Fiocruz publica artigo sobre método inovador de combate à arboviroses em revista do grupo Nature

Um grupo de pesquisadores Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) teve um artigo publicado pela revista científica online Scientific Reports, que integra o grupo Nature e abrange todas as áreas das ciências naturais. O artigo "Development and physiological effects of an artificial diet for Wolbachia-infected Aedes aegypti" aborda o desenvolvimento de uma dieta artificial para os Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, que são os mosquitos utilizados pelo projeto Eliminar a Dengue: Desafio Brasil (ED Brasil).

Atualmente, os mosquitos do insetário são alimentados com sangue humano descartado de bancos de sangue parceiros da Fiocruz, por terem se tornado inadequados para utilização em pessoas devido ao tempo de armazenamento. O sangue é importante para a alimentação de mosquitos fêmeas, que necessitam dos seus componentes para produzir ovos.

Antes de o sangue ser utilizado para a alimentação dos mosquitos, a equipe de diagnóstico realiza uma análise minuciosa do material doado com o intuito de investigar a existência de infecções sanguíneas, como por exemplo, dengue, Zika, chikungunya e febre amarela - doenças que não são diagnosticadas pelos bancos de sangue. Essa etapa garante a segurança na alimentação dos mosquitos.

A adoção da dieta artificial, em substituição ao sangue humano na alimentação dos mosquitos criados no insetário do projeto ED Brasil, traria mais agilidade ao manejo dos insetos. “Se conseguirmos que essa dieta funcione de forma padronizada, mesmo que com uma pequena perda no número total de ovos e larvas, haverá economia de tempo e recursos porque não precisaremos mais fazer todos os testes que são necessários para identificar possíveis infecções no sangue humano”, observou o pesquisador Luciano Moreira, líder do ED Brasil e um dos co-autores do artigo.

Para se chegar à dieta de que trata o artigo, o primeiro passo foi analisar os componentes do sangue humano necessários para a Wolbachia e então produzir uma fórmula que contenha esses elementos. Para se replicar e permanecer viva dentro do mosquito, a bactéria precisa do ferro presente nas hemácias e do colesterol presente no plasma do sangue. Os testes consistiram em verificar a eficiência dos nutrientes usados na fórmula.

Foram realizados mais de 30 experimentos diferentes em um ano e meio de testes até se chegar a composição final. A fórmula utiliza o APS, que é uma solução fisiológica criada para o Aedes, rica em sais minerais, o Alfaré, fonte de proteína proveniente de um leite especial produzido para bebês, o Whey Protein, que é a proteína do soro do leite, sangue bovino e ATP, que é um fagoestimulante (utilizado para atrair os mosquitos a consumir a dieta). “A ideia é, num futuro próximo, chegar em uma alimentação que seja totalmente artificial. Assim, poderemos ter um número esperado de ovos eclodindo”, afirmou o pesquisador.

Na criação de mosquitos no insetário do Rio de Janeiro, o ED Brasil utiliza a fórmula de forma experimental e tem resultados satisfatórios. “Nós conseguimos uma quantidade significativa de eclosões de ovos, quase tão expressiva quanto conseguimos com alimentação com sangue humano”, explicou Moreira.

É possível fazer com que a fêmea do Aedes aegypti produza muitos ovos, dependendo da alimentação fornecida, mas durante o processo de desenvolvimento é necessária uma quantidade elevada de nutrientes também para a evolução da Wolbachia no embrião. Caso esses elementos não estejam na proporção adequada, a viabilidade do ovo do mosquito é comprometida.

Os demais co-autores do artigo são os seguintes pesquisadores do "Grupo Mosquitos Vetores: Endossimbiontes e Interação Patógeno Vetor", do Instituto de Pesquisas René Rachou, da Fiocruz Minas: Heverton Leandro Carneiro Dutra, Eric Pearce Caragata, Silvia Lomeu Rodrigues, Simone Brutman Mansur e Sofia Pimenta de Oliveira. Um dos resultados verificados na pesquisa é que a alimentação artificial não interfere na ação da Wolbachia nos mosquitos. O artigo está disponível no link: https://www.nature.com/articles/s41598-017-16045-6.

O projeto

O projeto ED Brasil integra a iniciativa internacional World Mosquito Program (WMP) e constitui uma alternativa natural e autossustentável de combate a dengue, Zika e chikungunya. Os mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia são criados no insetário e liberados no ambiente. Esses mosquitos possuem capacidade reduzida de transmitir aquelas arboviroses e, aos se reproduzirem com os Aedes aegypti do campo, geram mosquitos com a mesma característica.