Chikungunya: o arbovírus que pode prejudicar prolongadamente a qualidade de vida do paciente

Chikungunya: o arbovírus que pode prejudicar prolongadamente a qualidade de vida do paciente

Flávio Carvalho

Chikungunya é uma palavra de origem makonde, que é a língua falada pelos povos que habitam o norte de Moçambique e o sul da Tanzânia e significa “aqueles que se dobram para cima”. O nome tem relação com as intensas dores nas articulações que as pessoas contaminadas sentem quando apresentam a fase aguda desta doença. Os pacientes que evoluem para o caso crônico podem sentir essas dores por um período que varia de 3 meses a 5 anos.  

Devido a sua alta taxa de ataque, número percentual que expressa a quantidade de casos novos de uma determinada doença, numa população sob o risco de desenvolvê-la, podendo em poucos meses infectar até 50% de uma população em uma única epidemia, essa doença é considerada entre os profissionais de saúde como a mais grave entre as arboviroses. Os sintomas clássicos para diagnosticar um quadro de chikungunya em fase aguda são febre alta, persistindo por 48 horas, manchas avermelhadas, conhecidas como rash cutâneo, que aparecem a partir do terceiro dia e as intensas e incapacitantes dores articulares. Na graduação médica de dor de 0 a 10, a intensidade é de 7 a 10 na fase aguda, que faz com que atividades habituais como andar se tornem difíceis de serem realizadas.

A chikungunya tem três estágios no qual o paciente pode ou não evoluir: a fase aguda, a subaguda e a crônica. A primeira fase tem a duração média de 14 dias, já a subaguda a pessoa infectada pode sentir dores articulares durante três meses, já na fase crônica essas dores podem persistir até 5 anos. De acordo com o médico e pesquisador em Saúde Pública pelo Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães, unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no estado de Pernambuco, e também membro do Comitê Técnico do Ministério da Saúde para Arboviroses, Carlos Brito, 50% das pessoas infectadas podem evoluir para o caso prolongado da doença e até 30% dos pacientes podem passar um período de atenuação da sintomatologia e, em semanas ou até mesmo meses, ter novamente uma crise semelhante à fase aguda. Ainda não há estudos conclusivos que mostrem o que reativa a inflamação nas articulações causadas por esse vírus.  

Em comparação com as demais arboviroses, a chikungunya ocasiona dores articulares mais intensas. O paciente não consegue realizar atividades rotineiras como se levantar, se pentear, se vestir ou abrir uma garrafa. Isso acontece devido ao tropismo desse vírus, que tem predileção pelos tecidos das articulações. O vírus da febre chikungunya é um Alphavirus da família Togaviridae e esses organismos, depois de completar a etapa sanguínea, comum a todos os vírus, tendem a se localizar nas articulações e produzir uma resposta inflamatória, liberando proteínas e toxinas nesses tecidos.

O risco de óbito

O médico Carlos Brito, alerta para um fato que é pouco comentado entre os profissionais de saúde: a chikungunya pode levar o paciente a óbito. Ele explica que, apesar dos relatos oficiais de 50 mortes por chikungunya no estado de Pernambuco, houve um excedente de mais de 2 mil mortes, em 2016, ao mesmo tempo que acontecia uma epidemia da doença. Na visão dele, esse número oficial de mortes por chikungunya pode ter sido subestimado.  

"Os profissionais não estão associando essa letalidade com a chikungunya, porque as pessoas não estão sendo alertadas que ela pode levar a morte. Os pacientes podem morrer por causas diretas, o vírus atingir o sistema nervoso central e levar a encefalite ou de forma secundárias, acometendo pacientes que sofrem de diabetes, hipertensão, angiopatia", afirmou Brito. De acordo com o médico, o que acontece é que o paciente sofre um desequilíbrio de doenças de base como hipertensão e diabetes, por exemplo, e falece em decorrência de complicações geradas pela chikungunya. Ele lembra que a chikungunya pode causar miocardite, que é uma inflamação no coração, e insuficiência renal. Brito diz também que é muito comum nos atestados de óbito, o médico, por desconhecer essa associação, não fazer referência ao episódio de chikungunya que o paciente demonstrou semanas atrás. "É preciso que haja uma capilarização dessa informação para todos os profissionais de saúde, para que eles estejam atentos a esse tipo de complicação", observou.

Os números mostraram que esse excedente de mortes que aconteceram por motivos diversos na epidemia de 2016 em Fortaleza, Maceió e no estado do Rio Grande do Norte é muito maior que os anos anteriores. Neste ano, o Ministério da Saúde anunciou que o Brasil teve um aumento de 850% dos casos de chikungunya, com 251.051 casos confirmados da doença, contras 26.435 em 2015. O número de mortes no país foi de 138 pessoas, enquanto no ano passado foram somente seis.

O impacto social e econômico

A chikungunya é uma doença que o paciente não consegue se tratar em casa, porque é necessário tomar analgésicos muito potentes para atenuar as fortes dores nas articulações. Para administrar esse tipo de medicamento é necessária uma orientação médica precisa. Então, um dos efeitos nas comunidades que sofrem com uma epidemia desse vírus são os ambulatórios e unidades de saúde sobrecarregadas.

O que ajuda a aumentar rapidamente o número de pessoas procurando atendimentos nas unidades de saúde é a taxa de ataque elevada do vírus, infectando rapidamente uma população em poucos meses. O que pode ter contribuído para elevar esse coeficiente foi a mutação que o vírus sofreu, aumentando a sua capacidade de replicação e reduzindo o intervalo do parasita dentro do vetor.

Segundo o médico, o paciente tem sua rotina de trabalho e lazer prejudicada, por conta das intensas dores que as pessoas sentem quando a doença evolui para a fase subaguda e crônica. Esse quadro acarreta não só um impacto social na comunidade com também um impacto econômico. "É uma pena não termos pesquisas para mostrar o quanto se gasta e o quanto se perde com essas epidemias com arboviroses, pois poderia incentivar a se investir na prevenção dessas doenças", avaliou.

De acordo com Carlos Brito, o Brasil corre um risco iminente de uma nova epidemia de arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti, porque os dados de 2015 e 2016 mostram que o vetor está fora de controle. Em 2017, aconteceu uma redução no número de casos de pacientes infectados, mas segundo ele, não há motivos para se comemorar, pois o que ocorreu foi um ciclo natural das arboviroses em que, após uma epidemia, o número de casos reduz espontaneamente - e não um esforço em investimentos em saneamento básico, higiene, água encanada ou conscientização da população que causou essa diminuição.   

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