Sobre a Wolbachia

A Wolbachia pipientis é uma bactéria intracelular observada pela primeira vez há 70 anos, em mosquitos da espécie Culex pipiens. Sua descoberta ocorreu em 1926, mas poucas pesquisas foram realizadas sobre o tema até 1972. Desde 1990, mais de 1.500 estudos científicos sobre a Wolbachia foram publicados em periódicos científicos.

Amplamente presente em insetos

Estudos recentes demonstraram que esta bactéria é amplamente presente entre os invertebrados e pode ocorrer naturalmente em até 60% de todos os insetos do mundo, incluindo borboletas e diversos mosquitos, como o Culex, o comum ‘pernilongo’. Apesar desta ampla gama de hospedeiros, a Wolbachia não é infecciosa e não é capaz de infectar vertebrados, incluindo os humanos.

 

Capacidade para reduzir a transmissão dos vírus dengue e Zika

Cientistas do programa internacional ‘Eliminar a Dengue: Nosso Desafio’ demonstraram, em condições de laboratório, que a Wolbachia é capaz de reduzir a transmissão do vírus da dengue pelo mosquito Aedes aegypti. Em maio de 2016, os pesquisadores do projeto 'Eliminar a Dengue: Desafio Brasil' publicaram um estudo científico em que descrevem a ação da bactéria Wolbachia também sobre o vírus Zika.  

Autossustentabilidade nas gerações de mosquitos

A característica intracelular da Wolbachia (vive apenas dentro de células) impõe limitações significativas na sua capacidade de dispersão, uma vez que ela só pode ser transmitida verticalmente (de mãe para filho) por meio do ovo da fêmea de mosquito. Como resultado, o sucesso da Wolbachia está diretamente ligado à capacidade de reprodução do inseto.

Curiosamente, a Wolbachia confere uma vantagem reprodutiva devido à chamada ‘incompatibilidade citoplasmática’: fêmeas com Wolbachia sempre geram filhotes com Wolbachia no processo de reprodução, seja ao se acasalar com machos sem a bactéria ou machos com a bactéria. E, quando as fêmeas sem Wolbachia se acasalam com machos com a Wolbachia, os óvulos fertilizados morrem.

Inicialmente, com poucos Aedes aegypti com Wolbachia na população de mosquitos, a vantagem reprodutiva será pequena. Mas, com as sucessivas gerações, o número de mosquitos machos e fêmeas com Wolbachia tende a aumentar até que a população inteira de mosquitos tenha esta característica. Por isso, uma vez estabelecido o método em campo, em determinada localidade, os mosquitos continuam a transmitir a Wolbachia naturalmente para seus descendentes, dispensando a necessidade de intervenções adicionais.

Segurança do Aedes com Wolbachia

Como é uma bactéria intracelular, a Wolbachia tem várias limitações na sua habilidade de disseminação, já que pode ser transmitida apenas verticalmente, no processo de reprodução. A saliva de mosquitos com Wolbachia foi examinada pela equipe do Programa ‘Eliminar a Dengue’, na Austrália, e verificou-se que não contém a Wolbachia. Além disso, como é necessariamente intracelular, a Wolbachia não atravessa o estreito duto salivar do mosquito: a célula onde a Wolbachia fica localizada é da ordem de grandeza de 10 µm (micrômetros), enquanto o duto salivar tem apenas 1 µm de calibre. [O micrômetro é a milésima parte do milímetro.]

Muitos insetos, incluindo diversas espécies de mosquitos, naturalmente carregam a Wolbachia. Esses mosquitos comumente picam pessoas sem efeitos negativos – como o pernilongo comum, por exemplo. Durante cinco anos, pesquisadores do programa ‘Eliminar a Dengue’, na Austrália, voluntariamente alimentaram uma colônia de mosquitos com Wolbachia, resultando em centenas de milhares de picadas de mosquitos nessa equipe sem que fossem detectadas reações.

Outra informação importante é que, por ser uma bactéria intracelular, a Wolbachia não pode sobreviver fora de uma célula viva do inseto. Isso significa que quando o mosquito morre, ela morre também. 

Por fim, vale ressaltar que antes do início dos testes de campo na Austrália, com a soltura de mosquitos com Wolbachia, uma análise independente de risco concluiu sobre a segurança da introdução da Wolbachia na população local de mosquitos. A Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Comunidade das Nações (CSIRO, principal Agência de Ciência da Austrália) concluiu que este método apresenta riscos insignificantes tanto para o meio ambiente quanto para a segurança humana. Uma aprovação regulamentar para a soltura do Aedes com Wolbachia foi concedida pelo Governo Australiano por meio da Autoridade Australiana de Pesticidas e Medicamentos Veterinários (APVMA, na sigla em inglês).

Como a Wolbachia é introduzida nas células do Aedes

A Wolbachia foi inicialmente transferida da mosca-da-fruta para os ovos do Aedes aegypti por meio de um procedimento de microinjeção, realizado com uma agulha extremamente fina. Foram necessários anos e milhares de tentativas em laboratório para alcançar este resultado. Uma vez no interior da célula, a Wolbachia estabelece uma presença estável em vários tecidos do mosquito.

Os ovos do Aedes aegypti com Wolbachia foram trazidos ao Brasil da Austrália, com autorização do IBAMA, autoridade competente para importação ou exportação de material biológico. A partir destes ovos, eclodiram pupas que se tornaram mosquitos adultos utilizados para o estabelecimento de uma colônia brasileira de Aedes aegypti com Wolbachia, em condições de laboratório na Fiocruz.